
História e Território
História, personagens e lugares que constituem Caboclo
Um território não se explica só por coordenadas. Caboclo se entende pelas histórias que atravessam gerações e pelos vínculos entre as pessoas e o lugar.
O território
Entre a Serra do Caboclo e a Serra dos Dois Irmãos
A Fazenda Caboclo ocupava posição estratégica no Sertão de Dentro. Sua localização a inseria em uma extensa rede de caminhos que articulava as capitanias do Piauí, Pernambuco e Bahia — por ali passavam pessoas, rebanhos, mercadorias e notícias.
Após alguns dias de descanso na fazenda, as tropas seguiam para a Fazenda Inveja (atual Afrânio), Arizona, Rajada e Paul Ferro, até chegar à Passagem do Joazeiro, às margens do rio São Francisco, que deu origem a Petrolina.
Hoje, o povoado integra o município de Afrânio e é habitado por descendentes das famílias que participaram de sua formação. Do conjunto original permanecem os casarios ao redor da igreja, os tamarineiros e uma memória coletiva transmitida pela oralidade.

Da Fazenda Caboclo ao povoado tombado
Mais de três séculos de história em um território produzido por tropeiros, vaqueiros, famílias, fé e mobilização comunitária.
Ocupação do Sertão de Dentro
A expansão da pecuária abre caminhos terrestres entre o Piauí, Pernambuco e a Bahia. Entre a Serra do Caboclo e a Serra dos Dois Irmãos, a Fazenda Caboclo torna-se ponto de descanso das tropas de gado a caminho da Passagem do Joazeiro, atual Petrolina.
Passagem do desembargador Manuel Nunes Colares
A viagem da autoridade portuguesa pelo sertão pernambucano mostra que os caminhos sertanejos atendiam não só à pecuária, mas também à administração da Coroa.
A Fazenda Caboclo entra na família
José Rodrigues Coelho, filho de Valério Rodrigues Coelho, recebe a Fazenda Carnaíba como dote e a divide entre descendentes. A Fazenda Caboclo é concedida a seu filho Inácio Rodrigues de Santana por ocasião do casamento com Cristina Maria Rodrigues Fernandes.
Igreja do Senhor do Bonfim
Construção da igreja que se tornaria o centro do povoado, preservada até os dias atuais como principal marco religioso de Caboclo.
Plantio dos tamarineiros
Segundo os moradores mais antigos, Miquelina, bisneta do Capitão Valério Coelho Rodrigues, planta um dos tamarineiros do largo. Em 2025 as árvores completaram 180 anos.
Caboclo governa Petrolina
Dois membros da família Albuquerque Cavalcanti tornam-se prefeitos de Petrolina: o Major Agostinho (1895–1898) e José Francisco de Albuquerque Cavalcanti, o Pai Chico (1904–1907).
A ferrovia chega à região
A Estação Inveja, da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro, desloca o comércio e os fluxos de circulação para a ferrovia. A Fazenda Caboclo perde a centralidade que tinha no ciclo da pecuária.
Vila de São João de Afrânio
O povoado é elevado a vila e distrito de Petrolina, com nome sugerido pelo Coronel Jubelino Albuquerque Cavalcanti em homenagem ao padroeiro São João e ao jurista Afrânio de Melo Franco.
Município de Afrânio
Instalado em 31 de maio de 1964, o município concentra as funções administrativas na nova sede. A antiga fazenda transforma-se no atual povoado de Caboclo.
O chamado à revitalização
Uma reportagem da Rede Globo retrata Caboclo como um povoado abandonado. O arquiteto Cosme Cavalcanti, descendente de Pai Chico, decide mobilizar familiares e moradores.
Nasce a CRC e a Festa do Tamarindo
Em 30 de janeiro é criada a Comissão de Revitalização do Caboclo, com quinze membros. Em setembro acontece a primeira Festa do Tamarindo.
CRC declarada de utilidade pública
A Lei Municipal nº 170, de 26 de outubro de 1998, reconhece os serviços prestados pela Comissão à população de Caboclo.
Inauguração do Museu Pai Chico
Projetado por Cosme Cavalcanti com planta em ferradura, o museu é viabilizado pelo Sistema de Incentivo à Cultura de Pernambuco, com apoio da CELPE, da Prefeitura de Afrânio, do Governo do Estado e da iniciativa privada.
Tombamento pela FUNDARPE
Homologado em 26 de janeiro de 2012 (Processo ECE nº 0410259-3/2009), o tombamento faz de Caboclo o primeiro povoado do Sertão pernambucano reconhecido como patrimônio material do Estado.
Caboclo nas telas de Otoniel Fernandes Neto
O artista plástico de Brasília passa longos períodos no povoado e produz mais de quarenta pinturas, reunidas na obra “Caboclo: marcas do tempo, retratos de uma vila”.
Homenagens a Cosme Cavalcanti
Após o falecimento do arquiteto, em 27 de junho, o Pátio de Eventos do povoado recebe o nome de Cosme José Cavalcanti Ramos (Lei Municipal nº 031/2023) e ganha um busto em sua memória.
30 anos da CRC
A Festa do Tamarindo homenageia seu idealizador com o tema “Paixão pela cultura do nosso povo” e celebra os 180 anos dos tamarineiros.
Quem fez e faz Caboclo
A história do povoado também é feita de vaqueiros, agricultores, trabalhadores livres, populações negras e indígenas — nem todos com nome registrado, todos presentes na identidade da comunidade.
Pai Chico — patriarca
José Francisco de Albuquerque Cavalcanti
Patriarca de uma das principais famílias de Caboclo, professor e prefeito de Petrolina entre 1904 e 1907. Foi Capitão da Guarda Nacional durante o Império; sua espada integra o acervo do museu que leva seu nome.
Último grande negociante de gado da família
Coronel Jubelino de Albuquerque Cavalcanti
1868–1953
Filho de Pai Chico, viveu o auge e o declínio das rotas de gado com a chegada da ferrovia. Sugeriu o nome da Vila de São João de Afrânio em 1932.
Arquiteto e líder da revitalização
Cosme José Cavalcanti Ramos
1952–2023
Formado pela UFPE em 1978, foi presidente-fundador da CRC, idealizador da Festa do Tamarindo e autor do projeto do Museu Pai Chico. Mobilizou a comunidade até o tombamento do povoado.
Sanfoneiro
Hosterninho do Acordeom
Músico da comunidade, presença constante sob os tamarineiros e nas festas, retratado por Otoniel Fernandes Neto em 2014.
Artista plástico
Otoniel Fernandes Neto
De Brasília, escolheu Caboclo como tema de uma série de pinturas sobre a arquitetura, a paisagem e a memória do povoado, publicada em 2014.
